Contextualizando: O Theatro Alencar e as Companhias Dramáticas em Leopoldina

BARROSO, Alan Villela*

RESUMO:

Partindo do pressuposto de que se existiu teatro, existiram espetáculos e, se a imprensa esteve presente, existiram registros, esta pesquisa objetiva averiguar as principais produções teatrais e circenses realizadas em Leopoldina, com base em recortes e matérias de jornais publicadas entre o entardecer do século XIX e o amanhecer do século XX, tendo em vista que, tanto as Casas de Espetáculos, quanto as tipografias, se expandiram pelo interior de Minas Gerais durante o período, não sendo exceção em Leopoldina, ao inaugurar seu primeiro jornal em 1879 e, cinco anos depois, o Teatro.

PALAVRAS-CHAVES: Teatro; Pesquisa Historiográfica; História do Teatro; Teatro Brasileiro; Teatro em Minas Gerais.

 

INTRODUÇÃO

A presente pesquisa objetiva analisar historicamente a trajetória das Artes Cênicas durante a transição do século XIX para o século XX, na cidade de Leopoldina, município fundado em 1854, na região da Zona da Mata mineira, interior de Minas Gerais. O período supracitado demarca o surgimento da imprensa na cidade, em 1879, e a construção do Theatro Alencar, em 1883, principal casa de espetáculos de Leopoldina, reinaugurado em 1928 como Cine Theatro Alencar, reformado em um conjunto arquitetônico de estilo neo-clássico, cujo prédio encontra-se conservado em uma das principais ruas do município.

Com base em notas, matérias, crônicas e críticas teatrais e circenses, publicados em periódicos impressos em Leopoldina, a pesquisa constrói uma historiografia das Artes Cênicas, compreendendo as Companhias Dramáticas, Circenses e Artistas; locais, nacionais e estrangeiros, que se apresentaram ou foram criados no município, observando os repertórios de espetáculos apresentados, elencos envolvidos e as críticas teatrais, quase sempre não especializadas, mas ricamente detalhadas, publicadas pela imprensa local.

Analisando os recortes históricos, descritos sob o pensamento crítico, noticioso e elitizado da imprensa local, é ponto de interesse compreender de quais formas os principais espetáculos teatrais e circenses, em circulação nos grandes centros do país, à época, foram inseridos no interior, apreciados e fruídos pelas plateias leopoldinenses, bem como reproduzidos por suas Companhias de amadores, Clubes Dramáticos e Associações Teatrais, fundados entre o final do século XIX e início do século XX no município, historicamente marcado pelas cicatrizes da escravidão e a hierarquia excludente das camadas sociais, frequentemente expostas pela imprensa, divididos entre a elite e os Zé Povinho da Roça[0] que, por inúmeras vezes, reuniram-se nos assentos do teatro e arquibancadas do circo, em contemplação e fruição de um mútuo momento cênico.

ENTRE A BIBLIOTECA E A HEMEROTECA: As fontes Primárias e Os Dados Parciais Da Pesquisa

O procedimento utilizado para coleta de informações, foi por meio de leituras em periódicos impressos em Leopoldina, entre final do século XIX e início do século XX, em suma, os jornais O Leopoldinense, inaugurado em 1879, e a Gazeta de Leopoldina, em 1905. Foi adotada uma metodologia de pesquisa documental, com o intuito de reunir o maior quantitativo possível de referências e menções sobre as manifestações artísticas no âmbito do município, priorizando o Teatro e o Circo, traçando, também, o histórico e as histórias do Theatro Alencar, principal Casa de Espetáculos construída na cidade, averiguando sua história e seu papel, enquanto espaço de fruição artística e convenção social, para o fomento das Artes Cênicas e da cultura no contexto em questão.

Através de análises e documentação das fontes primárias listadas abaixo – a tecelagem dos “recortes” -, observou-se compor uma parte essencial da historiografia do Teatro em Leopoldina, na medida em que os nós, embaraçados pela passagem do tempo, afrouxaram-se, permitindo trançar os fios novamente, em vislumbre de um vasto panorama para ser explorado:

Periódicos do Século XIX: 372 edições analisadas.

  1. O Leopoldinense: 213 edições, sendo 1, referente ao ano de 1880, consultada através da Biblioteca Digital do Arquivo Público Mineiro. As edições referentes aos anos de 1881 (53 ed.), 1882 (75 ed.), 1883 (29 ed.), 1884 (1 ed.), 1894 (8 ed.), 1895 (43 ed.) e 1896 (3 ed.), foram consultadas através da Hemeroteca Digital;
  2. Gazeta de Leopoldina: 10 edições acessadas pela Hemeroteca Digital, circulados nos anos de 1896 (1 ed.) e 1898 (9 ed.); além da consulta de 51 edições publicadas em 1898, e outras 52 edições referentes ao ano de 1899, disponíveis no acervo público da Biblioteca Municipal de Leopoldina;
  3. Gazeta de Leste: 15 edições acessadas pela Hemeroteca Digital, circulados entre os anos de 1890 (8 ed.) e 1891 (7 ed.);
  4. Irradiação: 9 edições acessadas pela Hemeroteca Digital, circulados entre os anos de 1888 (1 ed.), 1899 (6 ed.) e 1890 (2 ed.);
  5. O Arame: 22 edições, circulados entre dezembro de 1898 e junho de 1899, consultadas no acervo público da Biblioteca Municipal de Leopoldina.

 

Periódicos do Século XX: 1.629 edições analisadas.

  1. Gazeta de Leopoldina: 1.584 edições, consultadas no acervo público da Biblioteca Municipal de Leopoldina, circulados nos anos de 1901 (51 ed.), 1903 (52 ed.), 1904 (51 ed.), 1905 (51 ed.), 1907 (89 ed.), 1913 (294 ed.), 1915 (275 ed.), 1916 (91 ed.), 1918 (248 ed.), 1920 (24 ed.) e 1921 (255 ed.);
  2. O Novo Movimento: 45 edições, consultadas no acervo público da Biblioteca Municipal de Leopoldina, circulados nos anos de 1910 (17 ed.) e 1911 (28 ed.).

Foram registradas centenas de ocorrências sobre a circulação e a produção teatral em Leopoldina, descritas em riqueza de detalhes entre notícias, críticas teatrais, crônicas e dramaturgias publicadas pela imprensa. Entre os anos de 1880 e 1921, foi observado que, ao menos:

  • 60 Companhias dramáticas, grupos teatrais, associações artísticas e artistas se apresentaram em Leopoldina e/ou distrito;
  • 25 Circos se apresentaram em Leopoldina e/ou distrito;
  • 10 Grupos musicais, orquestras, maestros, duplas ou solo, apresentaram-se em Leopoldina e/ou distrito.

Observou-se, ainda, centenas de títulos de peças teatrais que fizeram parte dos repertórios destas companhias dramáticas, desde os gêneros mais populares, como a comédia de costumes e o drama burguês, aos espetáculos de variedades, ilusionismo, pantomimas e zarzuelas, um verdadeiro vislumbre da produção teatral em circulação no país, encenadas em Leopoldina, em seus largos e ruas, ou, na maioria das vezes, no palco do Theatro Alencar. Verificou-se, aproximadamente, os títulos de 224 espetáculos, (desconsiderando aqueles que não tiveram os nomes mencionados) sendo:

  • 100 Comédias;
  • 52 Dramas;
  • 30 Concertos, Cançonetas ou Óperas;
  • 12 Cenas, Atos ou Entreatos;
  • 8 Teatros de Revista;
  • 8 Pantomimas;
  • 6 Variedades, Mágica ou Prestidigitação;
  • 4 Operetas;
  • 3 Monólogos
  • 2 Zarzuelas;
  • 4 dramaturgias/cenas de dramaturgos locais, 83 críticas teatrais e 4 crônicas teatrais, extraídos na íntegra.

Foram consultados, primeiramente, os acervos virtuais disponíveis na internet, em suma, a Hemeroteca Digital Brasileira, da Biblioteca Nacional Digital, mantida pela Fundação Biblioteca Nacional, que disponibiliza, desde 2006, uma vasta coleção de documentos e periódicos sob domínio público e/ou autorizados pelos titulares dos direitos autorais, digitalizados na íntegra. Também foram realizadas inúmeras visitas na Biblioteca Pública Municipal Luiz Eugênio Botelho, em Leopoldina, para coleta de informações diretamente dos periódicos originais, uma experiência sensível em sentir a fonte. Assim, ao longo da pesquisa, até o presente momento, foram consultados e analisados 2.001 edições de jornais, publicados entre 1880 e 1921.

Inicialmente, foi observado que o acervo virtual da Hemeroteca Digital dispunha das fontes primárias necessárias para uma abordagem aprofundada, acerca do contexto artístico e cultural, referente aos últimos anos do século XIX, especificamente entre 1881 e 1899, em Leopoldina, tendo como fonte primordial as 212 edições do periódico O Leopoldinense, disponíveis, até o momento, no acervo da plataforma. Já na Biblioteca Pública Municipal Luiz Eugênio Botelho, as consultas foram diretamente nas fontes primárias – edições completas de periódicos, alguns circulados no final do século XIX; mas a maior parte, circuladas durante as duas primeiras décadas do século XX -, especificamente, um acervo do jornal Gazeta de Leopoldina que, até o momento, não encontra-se disponível para consultas na internet.

Por serem passíveis de aprofundamento e análise acerca de amplos aspectos e contextos das cidades e seus habitantes, ao longo dos séculos, os periódicos descrevem importantes períodos, eventos e recortes da história, cabendo, ao pesquisador, analisar, extrair e dissertar teoricamente, não necessariamente nesta ordem, sobre os dados e informações colhidas, perante o olhar reflexivo da contemporaneidade.

 

A CIDADE DE LEOPOLDINA: FORMAÇÃO HISTÓRICA E POPULACIONAL

 

Corria a notícia de que os terrenos marginais do Paraíba, de férteis e perigosos, podiam-se comparar as frutas amadurecidas e doces à beira das estradas, perto de casas de maribondos.

 – AGNELO VITRAL

 

Para compreender os principais aspectos históricos e culturais dentro do processo de formação da região da Zona da Mata e do município de Leopoldina, a pesquisa se embasa, essencialmente, na obra póstuma organizado pela professora Maria José Lara Pereira, “O Escrivão” (2015), de Mauro de Almeida Pereira[1] (1915-2001), um notável tabelião, jornalista e historiador leopoldinense do século XX.

A formação da região da Zona da Mata mineira possui suas origens no declínio da Era do Ouro em Minas Gerais, entre o final do século XVIII e início do século XIX, impulsionada pela exploração de territórios no Estado, visando novas práticas de trabalho, sobretudo a agricultura e agropecuária, fomentadas pela política das sesmarias, através da distribuição de terras, em grande parte, solos férteis, que tanto atraíram famílias e fazendeiros escravocratas, quanto renderam preciosas colheitas de café, elevando a região como pólo de produção, a partir da mão de obra escrava. Logo, sob o duro e fértil solo, formou-se a Zona da Mata mineira, “nascida para a civilização, no começo do século dezenove, quando se povoou com intensidade, deslocando-se para ela o centro econômico de Minas, com as lavouras de café.” (JÚNIOR apud PEREIRA, 2015, p. 94).

Em relação ao povoamento das terras que, décadas depois, germinar-se-iam no município de Leopoldina, Mauro Pereira (1976), enunciando as palavras de Augusto de Lima Júnior (1950), historiador do século XX, descreve que “no caso particular de Leopoldina, temos a considerar que a sua localização foi obra justamente dos colonos deslocados da região das jazidas de ouro” (ibid.). Sua formação remonta ao ano de 1825, quando uma espécie de “parada, em meio da mata mais para o sul, denominado Feijão Cru, onde um antigo soldado desertor da Cavalaria de Minas, alcunhado “o Peitudo” abrira um sítio ali, em companhia de alguns índios mansos que lhe colhiam a poaia do seu comércio” (ibid., p. 95). Ao espalhar-se a notícia das terras férteis do Feijão Cru, outros habitantes para lá se deslocaram, principalmente ex-mineradores, lavradores e famílias, em busca de trabalho e auto subsídio.

De acordo com Mauro Pereira (2015), por volta de 1828, “quando o nome do Arraial do Feijão Cru já estava por demais conhecido aqui aportaram as três famílias pioneiras de Leopoldina: os Almeidas, os Britos e os Netos, os Pinheiro de Lacerda e os Monteiro de Barros” (PEREIRA, 2015, p.131). Um dos pioneiros foi o Comendador Manoel Antônio de Almeida que, ao chegar ao Feijão Cru, “onde hoje se encontra o centro da cidade, comprou de um indivíduo chamado Felipe, as terras que logo transformou em uma grande e produtiva fazenda” (JÚNIOR apud PEREIRA, 2015, p. 95). Segundo Francisco de Paula Rezende, advogado militante em Leopoldina no ano de 1864, “com a chegada dos Almeidas começou uma verdadeira corrente migratória para a nova localidade. E foram os seus descendentes, os principais doadores das terras que formaram o patrimônio do município, inclusive a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (REZENDE apud PEREIRA, 2015, p. 98-99).

Em seu livro “Os Almeidas, os Britos e os Netos em Leopoldina” (1966), Mauro de Almeida Pereira debruça-se em um estudo genealógico sobre o pioneiro Manoel Antônio de Almeida e os descendentes das principais famílias responsáveis pelo povoamento de Leopoldina. Trata-se do resultado de seu trabalho, publicado pela Imprensa do Estado de Minas Gerais em 1966, sendo uma pesquisa “séria e competente para fixar um dos aspectos da formação de Leopoldina, qual o da linhagem de um dos seus autênticos pioneiros” (SALGADO, s/p, 1966), afirmou Clóvis Salgado. Como prescrito por Mauro de Almeida:

 

Neste trabalho, não houve outras pesquisas sobre os demais Almeidas, parentes do Comendador, porque então seria ocupação para muitos anos. […] Descendentes […] terão aqui a fonte de informação de seus ancestrais, cabendo-lhes a tarefa de levantar sua genealogia, relacionando os seus nomes, os de seus pais, tios, irmãos, cônjuges e de seus filhos (PEREIRA, 1999, p. 8).

 

Dada à relevância da continuidade dos estudos genealógicos sobre o povoamento de Leopoldina, levando em conta a existência de gerações contemporâneas não contempladas pelos estudos de Mauro Pereira, conforme o mesmo descreve acima, a pesquisa procurou expandir o horizonte, já desbravado pelo historiador, com o auxílio do site My Heritage, uma plataforma online de estudos genealógicos. Ampliou-se, assim, uma pequena parcela que nos cabe dentro desta história, descritos nos dois parágrafos que se seguem:

*

Nascido em Santa Rita do Ibitipoca (MG), “o pioneiro Manoel Antônio de Almeida faleceu em Leopoldina, em 1872, com 95 anos de idade” (PEREIRA, 2015, p. 99). Casou-se com Rita Esméria de Jesus, por volta de 1798 e, juntos, tiveram doze filhos, entre eles, Antônio de Almeida Ramos (1808-1886), casado com Maria Constança de Jesus (1823-1844). Antônio e Maria tiveram três filhos, entre eles, Antônio Venâncio de Almeida (1840-1900), por sua vez, pai de Antônio Venâncio de Almeida Júnior, nascido em 1870 e casado com Georgina Silveira de Almeida.

Do matrimônio de Antônio Júnior e Georgina Almeida, nasceu José Venâncio de Almeida, em 1906, casado com Otacília Souza de Almeida, os pais de Maria José Souza de Almeida, nascida em 1945, no distrito de Abaíba (MG). Maria José e Edgard Fernandes Villela tiveram três filhos, entre eles, Marcia de Almeida Villela Barroso, pentaneta de Manoel Antônio de Almeida, nascida em 1968. Marcia casou-se com Francisco Vargas Barroso, pais de Filipe Villela Barroso e Alan Villela Barroso, nascidos, respectivamente, em 1986 e 1988.

*

Na medida em que a população se expandia no Arraial do Feijão Crú, com elas, grandes fazendas se erguiam e a agricultura, desempenhada na região, gerava cada vez mais renda e prosperidade econômica ao lugar que, posteriormente, passou a ser chamado de São Sebastião do Feijão Cru, como referência ao Santo padroeiro, sendo considerado distrito do atual município de Mar de Espanha. Em 1854, S. S. do Feijão Crú emancipou-se, elevando-se à categoria de vila, como Villa Leopoldina, instaurada em 02 de janeiro de 1855[2], por meio da Lei Provincial nº 666, à época, sancionada pelo Presidente da Província de Minas Gerais em exercício, Francisco Diogo Pereira de Vasconcellos, conforme observado na transcrição abaixo, extraída do periódico O Bom Senso, circulado em Ouro Preto (MG), em 11 de maio de 1854:

 

Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembléa[3] Legislativa Provincial decretou e eu sanccionei a Lei seguinte: Art. 1º. Fica elevada á freguezia o districto de S. Sebastião do Feijão Cru do município do Mar d’Hespanha. Art. 2º. Fica elevada á cathegoria de villa com a denominação de – Villa Leopoldina – a freguezia de S. Sebastião do Feijão Crú, creada por esta Lei. Art. 3º. O municipio da Villa Leopoldina fica pertencendo à comarca do Pomba e comprehenderá os districtos da villa – Piedade – , Rio Pardo, Madre de Deos, S. José do Parahyba, Conceição da Boa-Vista, Capivara, Laranjal e Meia Pataca, desmembrados dos municipios do Mar d’Hespanha e Presidio. […] Dada no Palacio da Presidencia da Provincia de Minas Geraes aos 27 dias do mez de Abril do Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de 1854, 33º da Independencia e do Imperio. Francisco Diogo Pereira de Vasconcellos (O BOM SENSO, a. III, 1854, p. 6).

 

Durante este período, segundo PEREIRA (2015), a Vila Leopoldina contava com cerca de 2.000 habitantes, oito ruas e quatro praças. Conforme a população crescia, assim como as fazendas e lavouras de café, em 1881 foi “elevada a categoria de cidade, pela Lei nº 1.176, de 18 de outubro, constituída em comarca com o mesmo nome de Leopoldina” (JÚNIOR apud PEREIRA, 2015, p.94). Em relação ao crescimento da lavoura e das fazendas cafeeiras, de acordo com a professora e historiadora leopoldinense, Natania Nogueira: “de 1883 a 1887, em Leopoldina existiam cerca de 42 unidades produtivas, com uma área média de 703 hectares, ocupando um perímetro total de 29.554 hectares, tendo cada unidade uma média de 114.047 pés de café plantados” (NOGUEIRA, 2007, s/p).

Neste caso em particular, “vale dizer que, em 1876, havia 15.253 escravos, em Leopoldina então, o município com maior número de escravos na Província de Minas Gerais” (REZENDE apud PEREIRA, 2015, p. 99)[4], chegando a ser considerada em 1883,  de acordo com a historiadora Nilza Cantoni, “a segunda cidade com maior número de escravos da Província, com 16.001, contra 21.808 da primeira colocada, a cidade de Juiz de Fora” (CANTONI, 1995, s/p)[5]. Durante os últimos anos do século XIX, diversos foram os anúncios publicados no jornal O Leopoldinense referente a compra e venda de escravos, retratando a realidade aristocrática, que se enriquecia, às custas da escravidão. Eram muito comuns os anúncios de “Escravos Fugidos”, na área de classificados, contendo descrições físicas e chamadas para recompensas em dinheiro, no caso de captura, como podemos observar na transcrição abaixo:

 

200$000 – Fugiu da fazenda de José Antonio Fagundes de Avellar, em Julho de 1878 o seu escravo de nome Celestino, com a idade 30 a 40 annos, de cor preta, altura regular, magro, rosto comprido e descarnado, pouca barba, falta de dentes na frente, fala fanhoso (em razão de tomar tabaco), anda algum tanto zombo das pernas, tem uma cicatriz no dorso da perna do pé esquerdo, é natural de Itabira de Matto Dentro, foi comprado de Joaquim Ferreira Torres e Filho, é provavel que fosse para esses lados, já foi visto para os lados da Roca Grande; Quem o aprehender e levar a fazenda do dito senhor, no districto do Rio Pardo, municipio da Leopoldina, receberá a quantia acima. José Antonio Fagundes de Avellar (O LEOPOLDINENSE, a. III, nº46, 1881, p.3).

 

Segundo Mauro Pereira (2015), Leopoldina destacou-se de todas as outras comarcas, por sua influência econômica, social e política, impulsionadas pelas fazendas e suas grandes produções durante o ciclo do café, sendo considerada:

 

A mais importante cidade do Estado de Minas Gerais, em termos de arrecadação de impostos e taxas. No auge do seu esplendor, as grandes fazendas de café de todo o município – fazendas do Paraíso, da Providência, da Sesmaria, da Filadélfia, do Alto Sereno, […] asseguravam ao município, hoje dividido em três, uma renda superior a qualquer outra comunidade do Estado (PEREIRA, 2015, p. 147).

 

Somente em 13 de maio de 1888, foi abolida a escravidão no Brasil, por meio da Lei Imperial nº 3.353, mais conhecida como Lei Áurea, dando liberdade e alforria aos escravos brasileiros, assinada pela Princesa em regência, Isabel, filha do Imperador D. Pedro II, irmã mais velha de Princesa Leopoldina, cujo nome serviu de inspiração para o município.

Com a abolição da escravatura e a crise da cafeicultura em Minas Gerais, novas relações de trabalho e emprego começavam a emergir e, sob a luz do novo século, Leopoldina inicia “uma nova etapa de progresso com a formação da sua sociedade, das suas instituições, que se aprimoram desde o fim do império (PEREIRA, 2015, p. 101), demarcando um período de evidente progresso intelectual, cultural, político e literário, desde o surgimento da imprensa na cidade, em 1879, com a inauguração da casa de espetáculos, em 1883, e através da finalização das obras da Leopoldina Railway, ou Estrada de Ferro Leopoldina, a primeira construída no Estado de Minas, inaugurada em 1874, interligando os estados de Minas, Rio de Janeiro e Espírito Santo, viabilizando o comércio com outros estados e oferecendo acesso às Companhias Dramáticas e Circenses a circularem pelas cidades e distritos da Zona da Mata mineira.

O início do século XX em Leopoldina destaca-se, ainda, pela construção da Usina Hidrelétrica Maurício, a primeira da região, e a criação da Companhia Força e Luz Cataguases-Leopoldina, inaugurada em 1905, aposentando a iluminação a gás acetileno, substituída pela iluminação elétrica. A Companhia Força e Luz foi idealizada por José Monteiro Ribeiro Junqueira, fundador da Gazeta de Leopoldina que, junto de seu irmão Custódio, criaram o Gymnasio Leopoldinense, em 1906, um dos principais pilares que fariam Leopoldina ser reconhecida como Atenas da Zona da Mata. Instituição de ensino particular, com perfil de público formado, em sua grande maioria, por estudantes oriundos de famílias da classe média alta, o Gymnasio Leopoldinense ofereceu cursos em diferentes modalidades de ensino, inclusive de ensino superior, conforme detalhado pela Dr. Paloma Rezende de Oliveira[6] (2015):

 

Este estabelecimento de ensino leigo e particular foi idealizado por José Monteiro Ribeiro Junqueira e seu irmão Custódio Junqueira, configurando-se como um exemplo de estabelecimento de ensino criado para conformar-se aos projetos políticos das oligarquias locais.  Este estabelecimento de ensino destacou-se das outras 13 instituições escolares criadas entre 1896 a 1926, no município, por oferecer um ensino abrangente: primário, secundário, normal, superior em Odontologia e Farmácia, agrícola e comercial (OLIVEIRA, 2015, s/p).

 

Segundo demonstra Mauro de Almeida Pereira (2015), nas primeiras décadas do século XX, Leopoldina desenvolvia-se favoravelmente, expandindo seu perímetro urbano, do antigo centro da cidade, onde atualmente é a Praça Botelho Reis, às suas ruas adjacentes: a Rua da Grama, a Rua das Flores e a antiga Rua Municipal, atual Barão de Cotegipe, local onde foi edificado o Theatro Alencar e, “justamente no alinhamento do meio-fio do teatro, posteriormente Cine Alencar, encontrava-se o marco da divisa das três grandes propriedades agrícolas: a Fazenda do Feijão Cru, da Cachoeira e do Desengano” (PEREIRA, 2015, p. 102). Na transição dos séculos “nasceu o progresso urbano, da necessidade que os fazendeiros sentiram de possuir residências de fim de semana, para virem aqui assistir as missas, festas religiosas e políticas” (PEREIRA, 2015, p. 102) e, evidentemente, aos concorridos espetáculos no Theatro Alencar.

TYPOGRAPHIAS: Por dentro da imprensa em Leopoldina

Em 1879 surgiu a imprensa em Leopoldina. Trata-se do pioneiro jornal O Leopoldinense, criado por Francisco Gonçalves da Costa Sobrinho. Sua tipografia localizava-se, à época, na Rua do Rosário, nº 37, inicialmente classificado como uma “folha commercial agricola e noticiosa, consagrado aos interesses dos municipios de Leopoldina e Cataguazes, propriedade de uma sociedade anonima”. Costa Sobrinho, seu fundador e, também, editor e gerente, foi um comerciante local e alferes, oficial honorário do exército brasileiro, membro do extinto 33º Corpo de Voluntários da Pátria.

Participou da Guerra do Paraguai (1864-1870), através da Tríplice Aliança formada entre o Império Brasileiro, a Argentina e o Uruguai, todos contra o país vizinho, atuando na histórica Batalha de Campo Grande, ocorrida ao final da mesma guerra, em 16 de agosto de 1869, com vitória da Tríplice Aliança, conforme observado em um artigo, extraído do Jornal do Commercio[7], assinado por C. P. Fonseca, detalhando a chegada de Alferes Costa Sobrinho ao Rio de Janeiro:

 

Da província de Minas chegou hontem a esta Côrte o distincto jornalista Francisco Gonçalves da Costa Sobrinho. Residente na cidade da Leopoldina, montou alli uma typographia, e como redactor do Leopoldinense muito tem contribuido para o desenvolvimento e prosperidade da lavoura, commercio e industria do paiz. […] Popular por excellencia, é incontestavelmente um dos mais extremos athletas do jornalismo da terra de Santa Cruz (JORNAL DO COMMERCIO, 1882,a. LXI, n. 326, p. 2).

 

De acordo com a pesquisa[8] das historiadoras Nilza Cantoni e Luja Machado (2014), O Leopoldinense foi fundado em 1º de janeiro de 1879, tendo circulado até o ano de 1900. Até o momento, o mais antigo registro deste periódico disponível em acervo virtual, data-se do dia 7 de novembro de 1880, ano I, nº 51, presente no acervo do Arquivo Público Mineiro. Esta única edição é de extrema importância para a pesquisa, pois permite compreender o surgimento do Theatro Alencar, três anos mais tarde, conforme observado em uma pequena nota publicada na primeira página:

novo theatro

Ainda segundo Nilza Cantoni e Luja Machado (2014), circularam, ao menos, vinte e um periódicos, além de um almanaque, nos últimos anos do século XIX, em Leopoldina. Entre eles, destacamos a Gazeta de Leopoldina, um dos principais expoentes da imprensa regional, criado em 17 de abril de 1895, propriedade de José Monteiro Ribeiro Junqueira e Antonio Teixeira, também redatores, além de Emilio A. P. Pinto, como secretário-gerente.

Na ocasião de sua inauguração, a redação do jornal O Leopoldinense, à época propriedade de Randolpho Chagas e Valerio Rezende[9], não poupou elogios ao concorrente, demonstrando sua boa impressão acerca das instalações da nova tipografia, além de prenunciar o lugar ao trono que, posteriormente, a Gazeta iria conquistar, conforme observado na matéria publicada na primeira página do O Leopoldinense, em 21 de abril de 1895:

 

Tivemos o prazer de assistir na noute de 17 do corrente á inauguração das officinas do nosso collega Gazeta de Leopoldina. Convidados por sua illustre Redacção, percorremos as officinas e mais dependências do sympathico jornal e ficamos agradavelmente impressionadas pela excellente installação. Estiveram presentes á esta festa intima para assistirem á experiencia da primeira tiragem da folha, – além dos seus proprietários Drs. Teixeira e Junqueira, algumas Sras. das mais distinctas da nossa sociedade e muitos cavalheiros […] e Dr. Valerio Rezende, representando O Leopoldinense. Ao estourar do champagne foi saudado o novo campeão da imprensa, trocando-se muitos brindes amistosos e animados. (O LEOPOLDINENSE, a. XVI, nº 45, p. 1, 1895).

 

Na imprensa, o Sr. Ribeiro Junqueira expressou-se, enquanto político e cidadão, destacando-se da oposição, e abrindo caminhos que o levariam a ser uma das mais significativas figuras públicas e políticas da região. Nascido em Leopoldina no dia 27 de agosto de 1871, José Monteiro Ribeiro Junqueira graduou-se em direito, elegendo-se Deputado Estadual de Minas Gerais em 1895. Exerceu o cargo até 1900 e, três anos depois, elegeu-se Deputado Federal pelo estado de Minas, função exercida até 1930. Entre 1935 e 1937, foi Senador de Minas Gerais.

Desde o seu lançamento, a Gazeta de Leopoldina foi um jornal que, claramente, absorveu posicionamentos críticos, políticos e sociais em suas pautas, denunciando problemáticas próprias de um período demarcado pela transição dos séculos, onde a sociedade buscava, também, renovar e amadurecer o pensamento e os costumes em sociedade. Seu caráter opositor e denunciativo foi o que diferenciou a Gazeta de Leopoldina das principais publicações periódicas circuladas na época, segundo analisam Nilza Cantoni e Luja Machado (2016):

 

De abril de 1895, quando veio à luz, a dezembro de 1899, último número analisado […] raras foram as edições da Gazeta de Leopoldina que não disseminaram ironias e acusações contra seus oponentes. Fossem artigos do redator ou dos colaboradores, todos os periódicos publicados naquele quinquênio receberam alfinetadas mais ou menos intensas da folha que pretendia ser líder. E todos deixaram de circular pouco depois. Alguns sendo substituídos por outros títulos que também não sobreviveram ao furor com que a Gazeta lutava para reinar sozinha (CANTONI; MACHADO, 2016, s/p).

 

Como observado até aqui, a consolidação das tipografias nas cidades do interior mineiro, viabilizada pelos avanços tecnológicos e em sociedade, despertaram o desejo pela informação e sua propagação. Foram diversos os periódicos e jornais leopoldinenses circulados desde o final do século XIX e ao longo das primeiras décadas do século XX que  estiveram à frente desta empreitada e, entre eles, O Leopoldinense e a Gazeta de Leopoldina destacam-se na história da imprensa no município, pelo pioneirismo e empenho na circulação periódica de informação, literatura, crítica, cultura, política e  denúncia.

A solidificação da imprensa em Leopoldina permitiu, inclusive, que o Theatro Alencar possuísse seu próprio jornal periódico durante a gestão do empresário F. P. Carneiro no ano de 1916, conforme observado em nota publicada no jornal Gazeta de Leopoldina, nº 12, de 07 de maio de 1916. Denominado “O Alencar”,  órgão de propaganda da empresa F. P. Carneiro, circulou pela primeira vez em 30 de abril de 1916. Além de divulgar os filmes que seriam exibidos, o periódico era destinado a “registrar o que apparecer de moderno no mundo cinematographico. O “Alencar” é impresso nas officinas da Typographia “Mineira”, de Recreio, e a sua excellente factura material bem como a parte intellectual nada deixam a desejar. Desejamos-lhe vida longa”. Infelizmente, ainda não foram encontrados registros deste material ou quaisquer outras menções relacionadas ao periódico.

A presença da imprensa atuante em Leopoldina contribui para o fomento de pesquisas exploratórias, historiográficas e documentais, comprovadas as relevâncias das informações descritas pelas páginas dos jornais ao longo dos séculos, sendo os periódicos a principal fonte primária desta pesquisa, tendo em vista a ausência de bibliografias mais abrangentes sobre um tema bastante específico, como a história do teatro em Leopoldina.

 

TEATRO EM LEOPOLDINA: O Theatro Alencar, Companhias Dramáticas, Clubes e Associações teatrais.

Quatro anos após a chegada da imprensa em Leopoldina, construiu-se a casa de espetáculos, sendo concebida desde 1880, edificada entre 1881 e 1882, finalmente inaugurada em 1883, como Theatro Alencar, erguido na antiga Rua Municipal, atual Rua Barão de Cotegipe, satisfazendo os interesses populares através de uma iniciativa viabilizada por personalidades locais, como Chagas Lobato, Marciano Teixeira e Sargento Antônio Santa Cecília.

A construção de um teatro em Leopoldina vai de encontro com as transformações sociais e culturais vivenciadas nas cidades, naquele período. Segundo Affonso Ávila, “na segunda metade do século XIX, novos teatros viriam a ser abertos no interior da província, alguns instalados em edifícios para o fim especialmente construídos” (ÁVILA, 1978, p. 19), como no caso do Theatro Alencar, a mais influente casa de espetáculos do município que, desde sua inauguração, ofereceu espaço apropriado para a recepção das principais Companhias Dramáticas e artistas que circulavam pelo país, ao final do século XIX, tornando-se ponto de encontro e entretenimento para as inúmeras famílias e, também, espaço de trabalho para artistas e grupos amadores, bem como a imprensa, sempre assídua, garantindo o registro e a disseminação dos acontecimentos espetaculares.

Funcionou, ininterruptamente, entre o final do século XIX e segunda década do século XX quando, em 1925 foi à venda, sendo arrematado pelo valor de 25 contos de réis, por Salvador Rodrigues y Rodrigues, um agricultor espanhol, residente em Leopoldina.  Entre 1926 e 1927, recebeu significativas reformas, sendo reinaugurado no ano seguinte, em estilo neo-clássico, como Cine Theatro Alencar, oferecendo tanto exibições de filmes, durante o advento do cinema, quanto espetáculos e concertos de música, até encerrar suas atividades, em 1984[10].

Após um longo período inativo, o prédio viu suas portas reabrirem em 2005, reinaugurado com o nome de Cine Alencar, iniciativa de Paulo Roberto Xavier de Oliveira em fomentar o audiovisual no município. Mas, sem apoio, principalmente da municipalidade, foi fechado em 2009. Em 2010, o histórico prédio transformou-se em sede da Igreja Ministério Maranatha, ainda em funcionamento, na Rua Barão de Cotegipe.

Amplamente apreciadas pelo caráter divertido e instrutivo, as casas de espetáculos se espalharam rapidamente pelo interior de Minas Gerais no desenrolar do século XIX, na medida em que as cidades também se formavam, seu povo, sua identidade e cultura. O surgimento – acelerado – das cidades e dos teatros em Minas Gerais, especificamente na região da Zona da Mata mineira, emergiu da necessidade de pertencimento à própria esfera social em transformação. De acordo com Affonso Ávila,  esta transformação,  “operada nas bases econômicas de Minas Gerais, com a lavoura do café e a pecuária substituindo ou superando a antiga estrutura mineradora, determina um deslocamento de populações e interesses que terá como resultado o surgimento de novas cidades” (ÁVILA, 1978, p. 19).

Durante o Império do Brasil (1822-1889), o Rio de Janeiro, outrora Côrte Imperial, destacava-se como um grande centro de negócios para empresários teatrais, Companhias Dramáticas e Circenses, nacionais e estrangeiras, que por lá aportavam para, então, circularem pelo país, em longas caravanas artísticas e, justamente a Zona da Mata de Minas Gerais, pela sua proximidade com a Côrte, era considerada uma região privilegiada, sendo o principal ponto de partida para as principais companhias teatrais.

Affonso Ávila destaca a influência do município de Juiz de Fora, fundado em 1850, como centro econômico e cultural da Zona da Mata durante o final do século XIX pois, além “do desenvolvimento  material, adquire a cidade o status de importante centro de cultura, onde atividades como o teatro e a música vêm a ser grandemente favorecidas. Em 1863 já se encontra em funcionamento o Teatro da Misericórdia”  (Ibid.), construído pelo Barão de Bertioga a partir de mão de obra escravocrata.

Em 1870, foi inaugurado o Teatro Perseverança, uma propriedade de Carlos Otto, “surgindo ainda o São Sebastião, espécie de circo ou pavilhão armado pelo empresário Mattos Lobo. Em substituição ao Perseverança […], resolve-se construir uma grande e moderna casa de espetáculos – o Teatro Juiz de Fora” (Ibid.), inaugurado em 1889 pelos irmãos Ferreira Lage, também conhecido como Teatro Novelli, homenageando o ator italiano Ermette Novelli. Affonso Ávila aponta, ainda, a pluralidade cultural proporcionada pelas casas de espetáculos em Juiz de Fora, onde:

 

As programações não se limitam ao exercício de grupos locais, sendo ao contrário promovidas temporadas bastante regulares de companhias cariocas ou mesmo de elencos estrangeiros, o que torna Juiz de Fora, por sua proximidade do Rio de Janeiro e pelas excelentes condições de ligação rodoviária e logo ferroviária entre as duas cidades, o ponto inicial dos roteiros de excursão que as troupes dramáticas ou líricas empreendem pela província. O surto teatral se estende, porém, a todo o interior mineiro, e no último quartel do século as casas de espetáculo se multiplicam. (ÁVILA, 1978, p. 20).

 

O município de Leopoldina foi um desses lugares onde o teatro prosperou com facilidade no final do século XIX. Sua estrada de ferro, a Leopoldina Raylway, inaugurada em 1874, ofereceu acessibilidade aos municípios e distritos vizinhos, bem como outros estados. Sua localização próxima ao Rio de Janeiro, 236 km, e Juiz de Fora, 98 km, tornou-a um ponto de parada para as principais companhias artísticas em circulação, fomentando as Artes Cênicas no município e consolidando-a rapidamente no gosto do público leopoldinense. Como observado pela historiadora Natania Nogueira, no livro Fragmentos da História: O Leopoldinense – 1881:

 

Era comum anúncios n’O Leopoldinense convidando o público a assistir apresentações teatrais de companhias que passavam pela cidade ou que aqui estavam instaladas. Foi assim durante a segunda metade do século XIX e até meados do século XX (NOGUEIRA, 2014, p. 31).

 

A efervescência das Artes Cênicas na Zona da Mata de Minas Gerais justificaria a criação de uma comissão para viabilizar a edificação de um teatro[11] em Leopoldina entre o final de 1880 e início de 1881, por meio da iniciativa de leopoldinenses, entre eles os Srs. Dr. Chagas Lobato, Marciano Teixeira Lopes Guimarães e Sargento Antônio Santa Cecília. Inicialmente, a ideia concebia a construção do teatro na Rua Sete de Setembro, conforme observado na transcrição da matéria, publicada em novembro de 1880, no O Leopoldinense:

 

Novo theatro – Consta-nos que alguns cidadãos pretendem levantar um theatro entre o restaurant Araujo e a nossa typographia. E’ louvavel o empenho desses senhores, e, desejamos se que realise a projectada obra, para realce da arte e beneficio do povo (O LEOPOLDINENSE, 1880, p. 3).

 

Em abril de 1881, o Imperador Dom Pedro II, em visita à região da Zona da Mata mineira, realizou breve passagem por Leopoldina. Segundo uma pequena nota intitulada “Theatro Novo”, publicada em 21 de abril, o Imperador estaria presente na cerimônia de assentamento da pedra fundamental do futuro Theatro Alencar:

 

Somos informados de que brevemente se dará principio a construcção deste edificio, sendo a ceremonia do assentamento da pedra fundamental presidida por Sua Magestade o Imperador. Fez-se acquisição do terreno, e a madeira está quasi toda no lugar da obra. A pedra para os alicerces, deve ser conduzida na proxima semana (O LEOPOLDINENSE, a. II, nº 28, 1881, p.2).

 

Porém, a comissão responsável pela construção do teatro, encontrando dificuldades em arrecadar o valor necessário para o financiamento total da obra, desistiu da ideia original, adquirindo, então, um prédio, já em construção, localizado na Rua Municipal, nº 24, inicialmente previsto para abrigar um Templo Maçônico. A compra do imóvel foi concretizada em 20 de agosto de 1881, com a finalidade de dar lugar ao “Theatro Alencar”, “cumprindo pois levar a effeito essa importante obra[12]” (O LEOPOLDINENSE, a. II,  1881, nº 63, p. 4).

O Alencar foi construído entre 1881 e 1882. Em 19 de janeiro de 1883, diante da expectativa e insistência popular, a comissão decidiu, por fim, abrir suas portas e, “fazendo inaugurar o theatro saptisfez uma exigencia publica” (O LEOPOLDINENSE, a. IV, 1883, nº 4, p.2). Nascia, assim, o Theatro Alencar, “a mais vital aspiração do publico leopoldinense: a necessidade de um theatro, util e salutar diversão, entre nós que vegetamos a mingua de entretenimentos[13]” (O LEOPOLDINENSE, a. IV, 1883, nº 4, p.2).

Sua construção elevou o status moral do município, com base em um princípio progressista, classificada entre as cidades que dispunham de um teatro, recepcionando artistas e oferecendo espetáculos, que tanto divertiam, quanto instruíam as plateias oitocentistas. Em artigo[14] publicado no jornal O Leopoldinense, nº 63, em 1882, os Srs. Francisco Ferreira Cezar e Francisco Ferreira Varella, membros da Sociedade Theatral de Sapé, discorrem sobre o papel do teatro na formação social, afirmando que “em todos os lugares mais ou menos civilizados e achatados, vemos o theatro” (O LEOPOLDINENSE, 1882, p. 2). Em Leopoldina não foi diferente, executando a construção do Theatro Alencar, antes mesmo da construção de importantes obras, como a Casa de Caridade Leopoldinense, com escritura lavrada em 1895, bem como a Escola Pública Feminina, também em 1895, e do Gymnásio Leopoldinense, em 1906.

Em 19 de janeiro de 1883, durante a inauguração do Theatro Alencar, a reconhecida Companhia Escudero, dirigida pela atriz Amelie Escudero, apresentou seu vasto repertório de comédias. Na ocasião, 140 espectadores ocuparam as arquibancadas da plateia, conforme descrito na matéria abaixo:

 

Sem o menor apparato ou ceremonia effectuou-se ante-hontem a inauguração do Theatro Alencar. Pelas 8 1|2 horas da noute umas cento e quarenta pessoas occupavam ás archibancadas construidas no pavimento superior ao longo da parte principal. O panno de boca fica bem no centro do salão. No res de chaussée atrahe a attenção do publico um bem provido botequim. Algum tempo depois da hora annunciada, começou o espectaculo que correu até o fim sem o menor incidente, apenas notamos alguma irregularidade na distribuição das senhas. Por emquanto não podemos externar juizo quanto ao merito dos artistas, pois bem sabido é que na estréa de uma companhia, tudo contempla-se a  vol d’oiseau e apenas sobra algum tempo para examinar o elenco. Está pois saptisfeita a mais vital aspiração do publico leopoldinense: a necessidade de um theatro, util e salutar diversão, entre nós que vegetamos a mingua de entretenimentos, é por todos proclamada e a commissão composta dos nossos amigos Dr. Chagas Lobato, Marciano Guimarães e Santa Cecília, fazendo inaugurar o theatro saptisfez uma exigencia publica. (O LEOPOLDINENSE, ano III, 1883, p. 2).

           

Existiu, ao menos, outra casa de espetáculo em Leopoldina, com menções em matérias publicadas durante os anos de 1880 e 1881, no jornal O Leopoldinense: o Theatro Brandão. Como observado por Nilza Cantoni, em seu artigo O Teatro Em Leopoldina, “na edição de 01 de novembro de 1880, João Manoel Ferreira Brandão levaria à cena, pela primeira vez em Leopoldina, a peça Helena. O endereço do Theatro Brandão: rua Sete de Setembro.” (CANTONI, 2010, s/p). Porém, são poucas as referências relacionadas ao Brandão e, desde a inauguração do Alencar, não foram encontradas novas menções. Antes da inauguração do teatro, as encenações ocorriam, em suma, nos diferentes largos da cidade, como o Largo da Gramma e o Largo do Rosário.

Nilza Cantoni menciona, ainda, uma importante passagem presente no livro de C. Carlos J. Wehrs, O Rio Antigo – Pitoresco & Musical. Segundo a mesma, na página 177 do livro, estaria o autor se referindo ao Theatro Alencar, durante período em que Carlos Wehrs permaneceu em Leopoldina, durante os meses de setembro e novembro de 1886. Na ocasião, Wehrs descreve sua visita ao Teatro de Leopoldina, durante as encenações da Companhia Dramatica e de Opera Comica, dirigida pelo artista Ribeiro Guimarães, como pudemos constatar. Nilza Cantoni indaga se o autor “estaria se referindo ao primeiro prédio, posteriormente substituído pelo que ainda subsiste?” (CANTONI, 2010, s/p). Ou seja, Carlos Wehrs estaria descrevendo a primeira fase do Theatro Alencar, inaugurado em 1883?

A pesquisa procurou responder a pergunta, com base nas interpretações e análises das fontes primárias consultados. Concluiu-se, por fim, que o autor referia-se ao Theatro Alencar em seu aspecto original, inaugurado três anos antes. Conforme descrito por J. Whers, em 30 de outubro de 1886:

 

Naquela noite fui ao teatro de Leopoldina, em que, há alguns dias, faz temporada uma companhia de atores portugueses, sob a direção de um tal Guimarães. Movido pela curiosidade e pela monotonia, fui ver o espetáculo. Primeiramente, apresentaram uma peça de mistério: “O Lenço Branco”, e, depois, uma comédia intitulada “Não Tem Título”, de que gostei muito, por ter sido bem encenada e ser muito alegre. O teatro, o prédio, eu o sempre olhava com certo receio, porque não acreditava na sua estabilidade. Era uma imensa casa de pau-a-pique, dividida em galerias e camarotes em torno da platéia, e, embaixo, constituída de cadeiras e bancos. Até o Grêmio Musical Leopoldinense tocava nos intervalos. Em suma: foi interessante (WEHRS, 1980, 176-177).

 

O Alencar passaria por diversas reformas e reparos ao longo de sua existência. Com a passagem do tempo e do uso contínuo do espaço, a estrutura do teatro foi se desgastando e, em 1886, recebeu significativa reforma, culminando em nova inauguração no ano de 1887[15], trazendo longevidade ao mesmo, até meados do fim da década de vinte do século XX. Sob responsabilidade da empresa Arantes & Nogueira, o Alencar foi fechado em 1925, por oferecer risco aos artistas e plateias, devido à estrutura já deteriorada. Em 1926, foi à venda e arrematado pelo preço de 25 contos de réis. Seu comprador e novo proprietário, Salvador Rodrigues y Rodriguez, um notório agricultor espanhol estabelecido em Leopoldina.

Salvador Rodrigues
Foto: Sr. Salvador Rodrigues y Rodriguez, adquiriu o Alencar e o transformou em Cine-Theatro Alencar. Fonte: Centro Cultural Mauro de Almeida Pereira.

 

Em de 16 de março de 1927, o então presidente da Camara Municipal de Leopoldina, Dr. Carlos Coimbra da Luz, sancionou a Lei Municipal nº 412, garantindo os direitos de posse do Theatro Alencar ao seu novo proprietário, Salvador Rodrigues y Rodriguez:

 

Lei nº 412, de 16 de Março de 1927 – Dispõe sobre alienação do predio do Theatro Alencar. O povo do municipio de Leopoldina, por seus vereadores, resolveu, e eu, em seu nome, sancciono a seguinte lei: Art. 1º – Fica approvado, em segundo turno, o disposto na lei n. 398, de 7 de julho de 1926. Art. 2º – Fica egualmente approvada, em todos os seus termos, a escriptura, lavrada a 11 de agosto de 1926 em notas do tabelião Lauro Guimarães, de transmissão do predio do Theatro Alencar a Salvador Rodrigues y Rodriguez. Art. 3ª. – Revogam-se as disposições em contrario. Mando, portanto, a todas as auctoridades a quem o conhecimento e execução desta lei pertencerem, que a cumpram e façam cumprir e observar, tão fiel e inteiramente como nella se contém. Publique-se e registre-se. Secretaria da Camara Municipal de Leopoldina, 6 de Março de 1927. O presidente da Camara, Carlos Coimbra da Luz (GAZETA DE LEOPOLDINA, nº 238, 1927, p.1)

 

Rodrigues y Rodriguez transformou o antigo teatro em um imponente prédio de estilo neoclássico, inaugurado em 1928, como Cine Theatro Alencar, oferecendo espetáculos teatrais, como de costume, mas adequando o espaço para a nova tendência da época: o advento do cinema, quando inicia o segundo momento histórico de um teatro que ultrapassou três séculos, desde a sua existência.

No final do século XIX, o teatro consolidou-se em Leopoldina, alavancada pela construção de seu teatro e pelo interesse de empresários artísticos, políticos locais, cidadãos comuns, personalidades e artistas que criaram suas próprias associações e clubes dramáticos, compostos por estatutos e regimentos internos, sócios e associados, que participavam por meio do investimento de capital, subsidiando a criação da sede e dos espetáculos teatrais. Affonso Ávila demonstra a importância das companhias de amadores e a participação popular na preservação e manutenção das casas de espetáculo em Minas Gerais:

 

Depois da edificação, no transcurso do século XIX, de teatros em diferentes regiões da província, a arte dramática de caráter amador se expandiu de modo extraordinário, passando mesmo a constituir o fator decisivo da continuidade de funcionamento das casas de espetáculo (ÁVILA, 1978, p. 21).

 

Tornou-se comum cada municipalidade possuir seu próprio club theatral, ou associação dramática, voltada para a produção de espetáculos teatrais, geralmente dramas e, principalmente, as comédias, gênero preferido do grande público. As encenações, inseridas no contexto local, desempenharam diferentes funções, principalmente oferecer espaço para convenções sociais, entretenimento e instrução cívica e moral, sob os preceitos e costumes vigentes na sociedade da época.

A formação de sociedades teatrais e grupos amadores na Zona da Mata mineira, estimulou diretamente a edificação de diversas casas de espetáculo na região, decorridas “quase sempre de iniciativas que reuniam tanto uns quanto outros desses entusiastas e o próprio apoio oficial que eventualmente receberam só se tornou possível graças ao empenho pessoal de elementos de prestígio também ligados à arte” (ÁVILLA, 1978, p. 20). Foi o caso do Club Thalia, uma associação particular, oficialmente fundada em 18 de agosto de 1889 em Leopoldina, com o objetivo de oferecer aos seus associados, apresentações mensais de dramas e comédias. De acordo com o seu estatuto, publicado na íntegra no jornal Gazeta de Leopoldina em 27 de agosto de 1899:

 

O “Club Thalia” é uma associação puramente particular e longe de visar interesses pecuniários em favor de quem quer que seja, é seu único e exclusivo intento procurar diffundir quanto possível a arte dramática sob os princípios da mais pura e sã moral, proporcionando d’est’arte aos habitantes da Cidade o goso de algumas horas agradáveis na falta de outras diversões análogas e honestas (Gazeta de Leopoldina, a. V, nº. 20, p. 4, 27 de agosto de 1899).

 

Conforme rege seu estatuto, todos os interessados em se associar ao clube poderiam escolher entre três diferentes classes de participação oferecidas: os contribuintes, os cênicos e os de orquestra. Os contribuintes participavam através do investimento direto de capital, cujos recursos auxiliavam na manutenção das atividades e produção dos espetáculos. Pagavam uma mensalidade de dois mil réis, um valor equivalente a cerca de duzentos e quarenta seis reais, lhes garantindo uma cadeira permanente em cada espetáculo. Aquele que pagasse, no mínimo, cinco mil réis, tinha um camarote permanente reservado para os espetáculos mensais ordinários.

Já os sócios cênicos e de orquestra eram isentos de quaisquer valores ou taxas mensais, incluindo a entrada franca nos espetáculos ordinários pois, na verdade, eram esses que compunham o corpo cênico e musical do clube, atuando como atores dos espetáculos e músicos da banda musical, indispensável, à época, para as encenações teatrais. Tanto os sócios cênicos quanto os de orquestra, também tinham assentos reservados aos seus familiares.

Entre os nomes que fizeram parte do Club Thalia, destacam-se Ricardo Martins, presidente do clube, e os artistas do corpo cênico: Dilermando Cruz, Raphael Gimenez, Pepa Lopes, Raul Branco, Eurico Gama e Gustavo Saturnino. No palco do Theatro Alencar, realizou inúmeras encenações, como na noite de sua inauguração solene, ocorrida em 07 de setembro de 1899, quando levaram a cena a comédia “Lotação dos Bonds”, segundo a imprensa “um interessante apanhado tirado das confusões que tão commummente se dão nas grandes cidades em os pontos de bonds” (GAZETA DE LEOPOLDINA, a. V, n. 22, 1899, p. 2), seguida das comédias “Amor Por Anexins”, de Arthur Azevedo, e “Viva a Republica”, “que a par da parte comica, termina por uma brilhante apothéose á Republica” (Ibid.).

Destacam-se, ainda, a encenação do drama em 3 atos “A Pena de Morte”, em 02 de outubro de 1899, com participação da banda de música Lyra Leopoldinense. Na mesma noite, foi encenada a comédia “Novo Systema de Curar”. Em 26 de outubro, o Club encenou as comédias “Depois de Velhos… Gaiteiros”, “Amor Por Anexins” e “Um Judas em Sabbado de Alleluia”. Em 31 de dezembro, dia de espetáculo ordinário, foram encenadas as comédias “O Caipira” e “Como Se Fazia Um Deputado”, conhecidas do público leopoldinense, conforme insinuado pela imprensa, ao afirmar que “ambas dispensam maiores reclames pois são verdadeiras fabricas de gargalhadas” (GAZETA DE LEOPOLDINA, a. V, n. 38, p.1, 1899).

Entre o entardecer do século XIX, e limiar do século XX, perante o clarão de uma nova luz, gerada pela energia do gás acetileno, o Theatro Alencar e as diferentes companhias dramáticas e de amadores fundadas em Leopoldina, fortaleceram a criação de uma cultura cênica no município e seus distritos, em uma época onde a cultura estava diretamente associada à produção da cebola, da batata, do café e do algodão, ou seja, a agricultura, principal fonte de renda para os moradores da região.

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Continue sua leitura:
Parte I – Historiografia das Artes Cênicas em Leopoldina no Século XIX – 1880 / 1900;

Parte II – Historiografia das Artes Cênicas em Leopoldina no Século XX – 1901 / 1921;

Parte III – Cronologia das Artes Cênicas em Leopoldina – 1880 / 1921;

Parte IV – Antologia de Crônicas e Críticas Teatrais Publicadas Pela Imprensa Leopoldinense;

Parte V – Dramaturgias Leopoldinenses;

Parte VI – A EFERVESCÊNCIA DO AUDIOVISUAL NO FINAL DO SÉCULO XIX; INÍCIO DO SÉCULO XX EM LEOPOLDINA.

ANEXO: 

ESTATUTOS DO CLUB THALIA

Extraído do jornal Gazeta de Leopoldina, a. V, nº. 20, p. 4, 27 de agosto de 1899 e transcrito nas regras gramaticais em vigência na época.

CAPITULO I – Da organisação e fins do Club.

Art. 1 – O Club Thalia, fundado n’esta data na cidade Leopoldina Estado de Minas, tem por fim proporcionar a seus associados recitas theatraes e mensaes de comedias dramas etc.

CAPITULO II – Da Classificação Admissão e Direitos dos Socios.

Art. 2 – Haverá três classes de sócios: contribuintes, scenicos e de orchestra, sendo considerados sócios os que até a presente data tenham se inscripto, e, posteriormete os que forem propostos por outro sócio, sob a approvação da Directoria.

  • 1. O sócio contribuinte, com direito a uma cadeira permanente em cada espectaculo mensal e ordinário, pagará a mensalidade de dous mil reis.
  • 2. O sócio contribuinte, que mensalmente contribuir com a quantia não inferior a cinco mil reis, tem direito a um camarote permanente nos espectaculos mensaes ordinários.
  • 3. Os sócios scenicos e de orchestra, que compõem os corpos scenicos e muzical, que tem de funccionar nos espectaculos são isemptos de quaesquer contribuições ou mensalidades e cada um tem direito, além de sua entrada gratuita em cada récita mensal ordinária ás cadeiras que necessitarem para serem occupadas por pessoas de suas famílias

Art. 3 – Nos espectaculos extraordinários os sócios de qualquer cathegoria, terão direito á 50% de abatimento nos preços taxados para os logares de cada récita, quer esses sejam para si, quer para pessoas de suas famílias, excepto, porém, nas realisadas em beneficio de pessoas ou instituições, nas quaes o preço será integralmente pago;

Art. 4 – Os sócios tem o direito de seus fâmulos occuparem gratuitamente as galerias superiores do theatro somente nas récitas ordinárias ou ao abatimento de 50% nas extraordinárias.

Art. 5 – Os sócios contribuintes que tendo o goso de uma cadeira nos espectaculos ordinários, remirem-se com a quantia de cincoenta mil réis e os de goso de camarote com a de cem mil réis serão considerados Benemeritos.

CAPÍTULO III 

Art. 6 – Os sócios em geral, ficam inteiramente sujeitos as disposições do Regimento Interno, que for approvado pela Directoria.

CAPÍTULO IV – Do Capital Social.

Art. 7 – Haverá dous fundos: mobilisavel e fixo;

  • 1. O primeiro será constituído pelas contribuições dos sócios e pelo producto liquido dos espectaculos, será applicado em aluguel, illuminação, arranjos do theatro, mise-en scene e outras despesas inherentes aos espectaculos realisaveis em favor do Club.
  • 2. O segundo (o fundo fixo), compor-se-há das sobras liquidas e mensaes do fundo mobilisavel, bem como das offertas e dádivas feitas ao Club, e metade será applicada em mobiliar e melhorar o theatro, sendo a metade excedente destinada a caixa beneficente, que tem por fim soccorrer os sócios scenicos e de orchestra, em casos de moléstia que os impossibilite de trabalhar.

CAPITULO V – Das Assembleias Geraes.

Art. 8 – Haverá uma assembléa geral ordinária que se constituirá a primeira vez com a presença de vinte e cinco sócios quites, inclusive os membros da Directoria e na segunda vez com a de quinze sócios durante o mez de Agosto de cada anno, inclusive a do corrente, para proceder-se a eleição, prestação de contas annuaes e resolver-se sobre os demais assumptos attinentes ao engrandecimento e prosperidade do Club; e tantas assembléas geraes extraordinárias quantas sejam deliberadas pela Directoria ou requeridas por numero nunca inferior a vinte sócios quites. As requeridas serão validas quando constituídas com a presença de quarenta sócios quites.

  • Único. As asembléas serão convocadas com oito dias ou mais, de antecipação, pela imprensa local com especificação de seus fins.

Art. 9 – As assembléas ordinárias serão presididas por sócios alheios ou eleitos na occasião, que nomearão os secretários e escrutadores; as extraordinárias seão pelo Presidente da Directoria e secretariadas pelos secretários da mesma.

CAPÍTULO VI – Da Directoria e Suas Attribuições.

Art. 10 – A directoria compor-se-há de um Presidente, vice-Presidente, Thesoureiro, dous Secretarios e Procurados, e é considerada empossada no mesmo dia da eleição copetindo-lhe:

  • Único. Reunir-se ordinariamente do dia 3 a 10 de cada mez a contar de Setembro do corrente anno e extraordinariamente as vezes que forem necessárias para resolver:
  1. Os casos omissos dos presentes estatutos;
  2. A organisação do Regimento Interno;
  3. A nomeação do Director de scena e contra-regra bem como o pessoal necessário;
  4. A escolha criteriosa das peças que tenham de ser levadas a scena;
  5. A execução do art. 2º. In fine;
  6. A execução das deliberações das assembléas geraes e nomear membros para as vagas da Directoria.

Art. 11 – Somente a vaga do Presidente será preenchida pelo Vice-Presidente; ficando a cargo da Directoria a nomeação dos demais cargos vagos durante cada anno.

Art. 12 – Compete ao Presidente:

  • 1. Tomar parte em todos os actos do Club, velar e fazer cumprir os presentes Estatutos o Regimento Interno e Resolução das sessões da Directoria.
  • 2. Visar com um dos secretários, todos os documentos de caracter financeiro, que tenham de ser pagas pelo Thesoureiro.
  • 3. Nomear orador official para os actos em que julgue que o Club deva ser representado.

Art. 13 – E’ dever do Vice-Presidente exercer o cargo do Presidente, por vaga ausência ou impedimento do mesmo.

Art. 14 – Ao Thesoureiro incube:

  • 1. Fazer o Procurador proceder a arrecadação de todos os dinheiros e valores do Club.
  • 2. Tomar sob sua guarda e responsabilidade os dinheiros e valores do Club arrecadando-os mensalmente.
  • 3. Effectuar os pagamentos de contas e documentos visados pelo Presidente e um dos secretários.
  • 4. Prestar contas trimestralmente de sua gestão á Directoria, fornecer a mesma e sempre os esclarecimentos que lhe sejam solicitados.
  • 5. Tomar parte em todas as assembléas e reuniões do Club e executar todos os actos referentes ao seu cargo aqui não previstos.

Art. 15 – E’ deveres dos secretários:

  • 1. Tomarem parte nos trabalhos das assembléas geraes e nas reuniões da Directoria. 
  • 2. Fazerem de accordo a correspondecia e expediente e levantarem a escripta do Club.
  • 3. Visarem os documentos a que se refere o § 2º. do art. 12.
  • 4. Executarem fielmente o que com relação aos seus cargos for posteriormente resolvido.

Art. 16 – Cumpre ao Procurador:

  • 1. Tomar parte em todos os actos do Club e cumprir o que for resolvido nas assembléas geraes e nas sessões da Directoria com referencia ao seu cargo.
  • 2. Proceder a cobrança mensal dos dinheiros do Club.
  • 3. Realizar comprar e pagamentos que lhe forem ordenados pelo Presidente.
  • 4. Prestar suas contas mensaes ao Thesoureiro e entregar-lhe os dinheiros em seu poder.
  • 5. Exercer finalmente todos os actos inherentes ao seu cargo com toda plenitude.

Art. 17 – As Directorias nas sessões de Agosto de cada anno, organisarão suas contas, balancetes e relatórios, para serem apresentados as assembléas geraes ordinárias que devem ter logar nos mesmos mezes.

Art. 18 – As contas, balancetes e relatórios de que trata o art. Antecedente, serão pela Directoria publicados com quinze dias de antecedência, em um dos jornaes da cidade, e, não havendo reclamações e contestações até o dia da Assembléa, depois de lidas n’esta e sendo approvados, ficará a Directoria que terminou seu mandato isempta de qualquer responsabilidade [ilegível] […] com os livros e documentos do archivo, recahindo as culpas e damnos sobre o membro que as houver commettido.

CAPITULO VII – Disposições Geraes.

Art. 19 – O “Club Thalia” é uma associação puramente particular e longe de visar interesses pecuniários em favor de quem quer que seja, é seu único e exclusivo intento procurar diffundir quanto possível a arte dramática sob os princípios da mais pura e sã moral, proporcionando d’est’arte aos habitantes da Cidade o goso de algumas horas agradáveis na falta de outras diversões análogas e honestas.

Art. 20 – Não podem tomar parte em nenhum acto do Club, os sócios que não se acharem quites, para cujo fim as mensalidades devem ser pagas até o dia 15 de cada mez.

  • Único. Perderá o direito de sócio o que dever quantia equivalente a um trimestre.

Art. 21 – A reforma parcial ou completa dos presentes estatutos será deliberada por maioria da Directoria e submettida a uma Assembléa geral extraordinária, composta da presença de uma quarta parte dos sócios que então existirem.

Art. 22 – Revogam-se as disposições em contrario. 

Os presentes estatutos foram approvados em Assembléa geral ordinária do dia 13 do andante.

Secretario do “Club Thalia”, 18 de Agosto de 1899.

O 2º secretario.

Gustavo Saturnino da Silva.

NOTAS DE RODAPÉ

* Alan V. Barroso é discente do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas – PPGAC, do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura – IFAC, da Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP.

[0] O Leopoldinense, a. II, 1881, nº 54, p.1.

[1] Mauro de Almeida Pereira foi um importante tabelião leopoldinense, nascido em Barbacena. Cresceu em Recreio e estudou no Ginásio Leopoldinense, em Leopoldina. Neste município, atuou como tabelião, jornalista e historiador, assumindo, em 1945, o Cartório do Segundo Ofício de Notas e Documentos de Leopoldina. É referência em estudos e pesquisas genealógicas no município e região. Faleceu em 21 de Junho de 2001, em Leopoldina, aos 85 anos de idade.

[2] “Installou-se no dia 2 de […] janeiro do corrente anno a villa Leopoldina”, (O BOM SENSO, a. IV,  nº. 302, 1855, p. 1).

[3] Neste trabalho, todas as transcrições respeitam a ortografia e os padrões de escrita da época.

[4] Informações segundo o livro “Minhas Recordações”, de Francisco de Paula Ferreira de Rezende.  Foi um advogado leopoldinense, proprietário da Fazenda Filadélfia, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal. Proferido por Mauro A. Pereira, na palestra “A História de Leopoldina”, 1976. Retirado do livro “Mauro de Almeida Pereira – O Escrivão”, Maria José Lara de Brêtas Pereira (.Org). BH: Editora B, 2015.

[5] “A Escravidão em Leopoldina”, texto publicado no blog de Nilza Cantoni, em 16 de março de 1995. Acesso em: 18/10/19. Disponível em: < https://cantoni.pro.br/1995/03/16/a-escravidao-em-leopoldina/>.

[6] “Escola Normal do Ginásio Leopoldinense e o Projeto Educativo de Formação Das Elites da Zona da Mata Mineira”, Paloma Rezende de Oliveira, 2015. Disponível em: <https://document.onl/documents/escola-normal-do-ginasio-leopoldinense-e-o-projeto-educativo-de-.html>. Último acesso em: 27/01/2020.

[7] Até o encerramento de suas atividades, em 2016, o Jornal do Commercio possuía o título de “segundo periódico diário mais antigo do Brasil ainda em circulação, bem como um dos mais antigos de toda a América Latina, perdendo apenas para o Diário de Pernambuco” (HEMEROTECA DIGITAL, s/p, s/a). Seu fundador foi Pierre René François Plancher de La Noé, um tipógrafo parisiense, estabelecido na Côrte Imperial Brasileira em 1824. Fonte: Hemeroteca Digital. Disponível em: < http://bndigital.bn.gov.br/artigos/jornal-do-commercio-rio-de-janeiro/>, acesso em: 14/10/2019.

[8] “A Imprensa em Leopoldina (MG) Entre 1879 e 1899”, pesquisa de Nilza Cantoni e Luja Machado, publicada entre 2014 e 2016, nas colunas do jornal Leopoldinense, dividida em diferentes partes. Segundo o blog da autora, os textos se embasam no trabalho de pesquisa desenvolvido por Nilza Cantoni para o curso de pós-graduação em História Cultural pela Universidade Gama Filho.

[9] Segundo Nilza Cantoni (2017), Valério Barbosa de Rezende, leopoldinense nascido em 1867, formou-se em Direito, ocupando o cargo de Juiz Substituto, em 1892. Em 1894, tornou-se sócio e redator do O Leopoldinense.

[10] Fonte: Calendário Artístico e Cultural de Leopoldina, ano de 1997. Biblioteca Municipal de Leopoldina.

[11] De acordo com matérias publicadas no jornal O Leopoldinense, em 1881, também existiu em Leopoldina o “Theatro Brandão”, localizado na Rua Sete de Setembro, nº 8, dirigido por João Manoel Ferreira Brandão. Com a inauguração do Theatro Alencar, não foram encontradas novas menções ao Theatro Brandão. Acredita-se que o Alencar, em termos de estrutura física, veio suprir a carência de uma casa de espetáculos e diversões na região.

[12] O Leopoldinense, a. II, 1881, nº. 63, p. 4.

[13] O Leopoldinense, a. IV, n. 4, 21 de janeiro de 1883, p. 2.

[14] Jornal O Leopoldinense, nº 63, 17 de setembro de 1882, p. 2.

[15] Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, edição 291, 18/10/1887, página 2. Fonte: Hemeroteca Digital. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=103730_02&pesq=theatro%20alencar>, último acesso em 16/08/2018.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ÁVILA, Affonso. O Teatro em Minas Gerais: Séculos XVIII e XIX. Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Ouro Preto, MG – 1978.

CANTONI, Nilza. A Escravidão em Leopoldina. 1995. Disponível em: <https://cantoni.pro.br/1995/03/16/a-escravidao-em-leopoldina>. Último acesso em: 27/01/2020

________________. O Teatro em Leopoldina. Disponível em: <http://cantoni.pro.br/MemoriaLeopoldina/teatro.htm>, último acesso em 13/08/2018.

CANTONI, Nilza. MACHADO, Luja. A Imprensa em Leopoldina (MG) Entre 1879 e 1899. Jornal Leopoldinense, 2014. Leopoldina – MG. Disponível em: <https://leopoldinense.com.br/coluna/141/a-imprensa-em-leopoldina-mg-entre-1879-e-1899>. Último acesso: 27/01/2020.

GAZETA DE LEOPOLDINA, Leopoldina-MG, 1896-1898. Períódicos disponíveis em: <http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=851140&pesq=>, último acesso em 13/08/2018.

GUINSBURG, J.; FARIA, João Roberto; LIMA, Mariangela Alves de. Dicionário do Teatro Brasileiro – Temas, Formas e Conceitos. São Paulo: Perspectiva: Edições SESCSP, 2009.

JORNAL DO COMMERCIO, 1882, a. LXI, n. 326, p. 2. Rio de Janeiro – RJ, 1882.

NOGUEIRA, Nogueira. Uma breve história de Leopoldina (1828-1930). 2007. Disponível em: <https://historiadoensino.blogspot.com/2007/06/uma-breve-histria-de-leopoldina-1828.html>. Último acesso em: 27/01/2020.

____________________. Fragmentos da História: O Leopoldinense – 1881. Editor Natania Aparecida da Silva Nogueira, 2014.

O BOM SENSO, a. III, 1854, p. 6. Ouro Preto – MG, 1854.

OLIVEIRA, Paloma Resende. Escola Normal do Ginásio Leopoldinense e o Projeto Educativo de Formação Das Elites da Zona da Mata Mineira. XXVII Simpósio Nacional de História, Florianópolis, 2015. Disponível em: <https://document.onl/documents/escola-normal-do-ginasio-leopoldinense-e-o-projeto-educativo-de-.html>. Último acesso: 27/01/2020.

O LEOPOLDINENSE, Leopoldina-MG, 1880-1896. Periódicos disponíveis em: <http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=706957&pesq=>, último acesso em 13/08/2018.

PEREIRA, Maria José Lara de Brêtas (.Org). Mauro de Almeida Pereira – O Escrivão. Belo Horizonte, Editora B, 2015.

PEREIRA, Mauro de Almeida. Os Almeida, os Britos e os Netos em Leopoldina – Genealogia. 1º edição eletrônica, 1999. Acesso em: 18/10/19. Disponível em: < https://pt.scribd.com/document/412264248/Os-Almeidas-Os-Britos-e-Os-Netos#fullscreen&from_embed>.

WHERS, C. carlos J. O Rio Antigo – Pitoresco & Musical. Memórias e Diário. Pref. de Américo Jacobina Lacombe, Rio de Janeiro, 1980.

————————–

ATUALIZAÇÕES DESTA PUBLICAÇÃO:

[AMPLIADO EM 18/02/2020 – Referência: Informações sobre o periódico “O Alencar”, órgão de propaganda da empresa F. P. Carneiro, do Theatro Alencar, circulado no ano de 1916.]

[AMPLIADO EM 16/02/2020 – Referências: Visita de Dom Pedro II em Leopoldina – Cerimônia de Assentamento da Pedra Fundamental do Theatro; Lei Municipal nº 412, de 16 de Março de 1927 que dispõe sobre a alienação do Theatro Alencar.]

[ATUALIZADO EM 01/02/2020]

 

Publicado por

Alan V. Barroso

Discente do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, da Universidade Federal de Ouro Preto (IFAC/UFOP/2019), desenvolvendo a pesquisa "TEORIAS DA TRANSIÇÃO: As influências das Artes Cênicas na formação de plateias de pequenas cidades do interior de Minas Gerais, durante processo de transição dos séculos XIX-XX". Especializado em Cultura e Literatura, pela Faculdade de Educação São Luís (FESL/2017-2018). Licenciado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Ouro Preto (2008-2012). Professor de Artes na Escola Estadual Enéas França (Leopoldina/2019), lecionando para turmas do Ensino Fundamental II e Ensino Médio. É Professor de Educação a Distância e Conteudista, do curso livre de capacitação em "Teatro e Letramento na Educação de Crianças" (Moodle/2019). Atuou como Facilitador de Artes e Cultura, na Secretaria de Assistência Social, do município de Leopoldina (2017-2018). Foi Instrutor de Artes e Cultura do SESC MG (Juiz de Fora/2012-2014). Atuou como Professor de Artes no Centro Educacional Mundo Mágico (CEMM/Ouro Preto/2011-2012), e Instrutor de Teatro na Associação do Grupo da Terceira Idade (AGTI/Ouro Preto-2010-2012). www.alanblair.wordpress.com www.theatroalencar.wordpress.com www.alanarteeducacao.wordpress.com

2 comentários em “Contextualizando: O Theatro Alencar e as Companhias Dramáticas em Leopoldina”

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